Não entendo como ainda existe no Brasil essa idéia de democracia racial. A própria miscigenação da sociedade foi uma consequência da violência e dos abusos a que negras eram submetidas pelos seus senhores ou patrões.
Muitos alegam que a discriminação ocorre em razão da classe social, e não pela cor, o que não poderia estar mais longe da realidade. São duas questões diferentes, são preconceitos que se somam e que acentuam o grau de marginalização e exclusão do indivíduo na sociedade.
Essa exclusão vai ocorrer durante a seleção para emprego, na escolha de qual funcionário será promovido, na formação do grupo diretivo da empresa, no salário oferecido e em diversas outras situações.
Além desses fatores mais objetivos, há o fato de o negro ver atacada sua imagem, sua cor, desde criança, o que apenas prejudica sua auto-estima, e consequentemente, suas ambições de vida.
Acredito que essa realidade tem se alterado um pouco nos últimos anos, especialmente com as políticas de cotas em universidades, mas muito caminho ainda precisa ser trilhado.
O futebol não deixa de ser diferente, faz parte da sociedade brasileira e por isso não está imune ao preconceito. Aceita-se o negro porque indiscutivelmente ele possui uma habilidade acima da média (bem como o negro do basquete norte-americano), mas desde que seja apenas para esse trabalho braçal. Para compor a diretoria de um clube, para ser um treinador de respeito, para dirigir as federações de futebol, aí é um trabalho para os senhores brancos...
15/4/2011
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Atos racistas, como os que tiveram como alvos os jogadores Roberto Carlos e Neymar recentemente, em jogos na Europa, costumam ganhar maior repercussão justamente quando ocorrem no exterior.
Quando acontecem em estádios brasileiros, episódios como esses costumam ser minimizados ou negados pelos autores e até mesmo pelos próprios atletas hostilizados, devido à ideologia de que o Brasil é uma democracia racial e isento de racismo, segundo dissertação de mestrado em história social defendido em fevereiro na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).
Intitulado “Além dos gramados: história oral dos negros no futebol brasileiro (1970-2010)”, o estudo foi feito por Marcel Diego Tonini e contou com Bolsa da FAPESP.
Para desenvolvê-la, o autor entrevistou 20 personalidades do futebol brasileiro, entre jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, torcedores, jornalistas e especialistas, em sua maioria negros.
Entre os entrevistados estão o comentarista esportivo Leovegildo Lins da Gama Júnior, ex-lateral do Flamengo e da Seleção Brasileira; Jairo do Nascimento, goleiro do Corinthians na década de 1970; José Carlos Serrão (Zé Carlos), ponta e meia-esquerda do São Paulo no começo dos anos 1970 e atual técnico do Central de Pernambuco; e Luiz Carlos (Lula) Bezerra Pereira, que jogou no Sport Recife e no América-MG, entre outros times.
Questionados inicialmente por Tonini se já tinham sido alvo de atos racistas em campo no período em que atuaram como jogadores, a maioria procurou negar, em um primeiro momento, a existência de racismo no futebol brasileiro e evitou expressões como discriminação. Mas, aos poucos, começaram a relatar alguns casos que sofreram.
Já os entrevistados brancos procuraram relativizar as ocorrências de racismo...
Continua em:
Racismo no Futebol
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